Quando a 5ª Companhia Independente do Comando Operacional do Interior, situado em Santana, foi inaugurada, um sentimento de euforia tomou conta de todos, tanto dos bombeiros deste quartel quanto da população. Foi até veiculada uma propaganda do governo do Estado na televisão durante semanas, mostrando o quartel moderno, mais uma obra do governo, etc e etc.
Quero frisar que nesta propaganda, foi explicitado que a área de cobertura do quartel de Santana se estendia até o distrito do Coração, INCLUINDO O MAZAGÃO. Ficamos abismados, no entanto, acatamos, afinal, somos a presença mais próxima do Corpo de Bombeiros que aquela comunidade possui.
Ontem, por volta das 18:25h, a guarnição de combate a incêndio de Santana foi acionada para um incêndio em residência, coisa séria, a guarnição se equipou e foi em trem de socorro para o local...
Lembrem-se, meus caros leitores, são duas balsas para atravessar o Rio Matapi e chegar até a comunidade do Mazagão Novo, local onde o incêndio ocorreu.
Na primeira balsa houve complicações severas já que ela estava carregada com alguns carros e estava do outro lado. Diante da ocorrência vigente, a prioridade deveria ser do caminhão de combate a incêndio, deveria ter sido feito um contato, inicialmente, não foi. O balseiro ofereceu resistência para vir com urgência para o nosso lado, queria esperar mais carros todavia não havia mais nenhum automóvel do outro lado para embarcar. Ainda bem que chegou uma guarnição dos nossos irmãos de farda da polícia militar para realizar de forma ordeira o contato e o retorno da balsa. Na chegada, os carros foram retirados da balsa e o caminhão AT embarcou, já o nosso ABS, caminhão de salvamento, teve de ficar por ser muito leve e não fazer um contra-peso no embarque, como não se podia perder mais tempo ele teve de retornar ao quartel, indo somente o nosso caminhão com 12 mil litros d'água. Essa foi a primeira dificuldade, a resistência do balseiro em auxiliar o bombeiro com uma prioridade que não era vaidade mas necessidade.
O que pegava fogo eram alojamentos da empresa de construção C.R. Almeida, por isso, um carro da empresa já nos aguardava junto com outra guarnição da PM no outro lado, e foi no carro do solicitante que o restante da guarnição foi junto com o Ten Almeida, oficial chefe de Socorro da área e que estava de serviço no dia.
A estrada, embora asfaltada, era completamente estreita e escura, nem o farol alto da viatura conseguia acalmar a escuridão fazendo com que o condutor usasse extrema cautela no deslocamento, o medo de sofrer um acidente era grande tamanho o "breu" que imperava na via.
A segunda balsa já aguardava os combatentes do fogo, no entanto, os carros estavam estacionados na rua de forma que obstruiu a passagem do nosso caminhão, passando somente os carros pequenos da empresa e as viaturas da PM. Mais uma vez, houve atraso, até se completarem as manobras dos carros para dar passagem ao caminhão de grande porte, o tempo passava. Nem parados, os carros dão passagem ao caminhão, aliás, essa é uma dificuldade muito comum tanto em Macapá quanto em Santana, os carros não trafegam na pista da direita (lenta) dando passagem ao trem de socorro (comboio de viaturas que vão para uma ocorrência grave), não há uma facilitação do deslocamento, os motoristas da cidade necessitam ser mais conscientes em relação a isso.
A guarnição andou mais alguns quilômetros de estrada escura até chegar no local do incêndio. O trajeto demorou cerca de 1 hora para ser completado, isso é uma eternidade para atender uma ocorrência.
Queimaram 30 alojamentos, completamente.
O local estava sem luz durante parte do dia, a CEA foi chamada para fazer os reparos na rede e a luz voltou. Nos alojamentos, dormiam quatro trabalhadores que estavam no horário de descanso, eles foram acordados às pressas por populares e por companheiros de serviço que viram a fumaça negra e intensa sair do estabelecimento. Prontamente, retiraram dos alojamentos, objetos para que não se perdessem nas chamas, fizeram o que puderam, quebraram inclusive o restante dos alojamentos, derrubaram forro para que as chamas não se propagassem. Foram muito atuantes, ainda bem.
Para a guarnição, restou apagar as chamas do grande entulho e fazer o rescaldo, foram inclusive recebidos com vaias pela população, que sempre entende que se está atrasado, mas não sabem o que se passou no trajeto, são posturas que não se retrucam na hora mas que devem se avaliadas numa tomada de consciência.
Depois de muito trabalho e de serem gastos todos os 12 mil litros de água, eles saíram do local para retornar à Companhia às 21:24h e chegaram no quartel às 22:56h.
Fico cá com meus botões...
A distância entre Santana e Mazagão é "imensa" para se atender uma ocorrência desse porte. Essa empresa deveria ter uma brigada de incêndio para atender suas necessidades, um caminhão com água e uma bomba de sucção têm grande valia. Tenho certeza que o Bombeiro não se oporá em dar treinamento adequado aos trabalhadores, isso é papel nosso e o que se quer é ter parceria com as empresas na amenização de acidentes dessa natureza, principalmente, quando se localizam em logradouros distantes, nesse caso, o bombeiro deve atuar como apoio.
Foram muitas as dificuldades, a começar pela falta de conscientização da população, eles não são sensíveis às necessidades do Corpo de Bombeiros no momento da atuação em ocorrência. A via que vai para o Mazagão é completamente escura à noite e sem sinalização luminosa, podendo gerar acidentes de trânsito. A própria empresa que não possui ainda um suporte material e técnico para atuar em incêndios, essa também foi uma dificuldade encontrada na labuta, faltou prevenção.
É difícil atuar assim e o que se recebe em troca, na maioria das vezes, são somente vaias e críticas.


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