
No último dia 11, ocorreu em várias capitais brasileiras a procissão em prol da Nossa Senhora de Nazaré.
Em Macapá, o Sírio se deu desde as primeiras horas da manhã, mais precisamente às 06 h.
As ruas em frente à Igreja Nossa Senhora de Fátima, ponto de partida da Santa até a Igreja de São José, estavam amarrotadas de fiéis católicos prontos a assistirem a missa inicial e a devotarem seus sacrifícios e oferendas de agradecimento pelas bênçãos alcançadas.
Pessoas carregavam réplicas de suas bênçãos acima das cabeças, partes de membros, velas enormes, casas em miniatura, crianças vestidas de anjo, sinais que lembrem o pedido e clamor de quem necessitava de cura, uma casa para morar, um filho, um emprego.
Um ponto marcante dessa cerimônia religiosa é a corda, lá muitas pessoas se agarram e prosseguem na caminhada descalças, sofrendo calor, falta de ar, desconforto, dores, enfim, suportando até o limiar de seus limites como prova de agradecimento pelas graças obtidas.
O Corpo de Bombeiros estava lá com guarnições preparadas para atender qualquer eventualidade. E posso afirmar, as ocorrências foram muitas.
Faz-se necessário citar que ao longo do percurso, haviam postos de atendimento confeccionados em barracas/toldos que possuíam um médico, enfermeiros e técnicos de enfermagem prontos para realizar procedimentos básicos, inclusive ministrar medicamentos. Meus companheiros bombeiros e eu cuidamos de atender as ocorrências no meião do sufoco, no meio da multidão, com bolsas de resgate e macas dobráveis. Na maioria dos casos, fazíamos o transporte daquelas pessoas pelo meio do mar de gente até os postos, enquanto a maré humana corria no curso de forma agitada. Foi uma dificuldade, mas somente nós podíamos fazer. Contamos ainda com a ajuda de alguns fiéis anônimos que sinalizavam e abriam caminho para que os trios de socorristas tivessem acesso mais rápido para fora da procissão. Nossa ambulância não parou.
Para muitos católicos, a festa não teve o sentido e o desfecho agradável que queriam.
Foi um sufoco!
A fé das pessoas é de admirar mas não se pode confundir com irresponsabilidade ou até mesmo insanidade. Senhoras de idade devem acompanhar esse festejo com mais cautela, às sombras das árvores, sempre acompanhadas de parentes, as crianças também, devem estar com roupas leves, sempre hidratadas com água ou suco, longe do tumulto e do calor da procissão.
Grande parte das ocorrências eram crianças perdidas de seus pais, desmaios e ataques epiléticos, de crianças, adolescentes e pessoas de idade avançada. Não dá pra conceber que nessa festa da fé possam ter pessoas que levadas por um excesso de sentimento indefinível, empurrem outros fiéis contra o chão, ignorando o fato que podem se machucar porque serão pisoteados, por mães e pais vestirem seus bebês de colo de anjo, enquanto estes choram e agonizam por conta do calor, por mulheres grávidas participarem da procissão de forma irresponsável andando no percurso no meio dos demais, sem se preocupar com um corredor de escape em caso de precisar fugir daquela multidão.
Se a meta é chegar até o final, cantando e rezando, agradecendo, por quê empurrar tanto, por quê dar cotoveladas, por quê querer chegar primeiro se todos devem chegar?
Nós, bombeiros vamos sempre estar a postos para ajudar mas se deve repensar no que de fato vale a pena se submeter para agradecer uma bênção, até que ponto se deve criar uma condição insegura para mim ou para minha família.
Tenho certeza que, se a Santa tivesse vida, não se agradaria de ver essas cenas na sua procissão.